RN tem até 6 casos não notificados de Covid-19 para cada confirmado, diz estudo

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O Rio Grande do Norte pode ter até seis casos não notificados de Covid-19 para cada caso confirmado oficialmente da doença. É o que mostra um estudo da Revista Pensar Geografia da Universidade de Estado do RN (UERN), que analisou a distribuição espacial do novo coronavírus no estado.

Os pesquisadores apontaram ainda que há subnotificação de 100% nos óbitos durante a pandemia. Isto é, para cada morte notificada, outra deixa de ser contabilizada. Para isso, a equipe de professores cruzou dados oficiais de mortes e casos da Covid-19 com registros e hospitalizações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no RN.

Foram utilizadas informações da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sesap), Ministério da Saúde, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e portal da transparência de cartórios, referentes até 9 de maio (Semana Epidemiológica 19). Na data, o RN contabilizava 1.921 casos e 85 óbitos pela doença. Pelo estudo, o estado teria até 12.595 casos (contando com os assintomáticos) e 169 mortes.

“É um dado muito preocupante porque a subnotificação denuncia que o vírus se espalha muito rapidamente. Além disso, as políticas de combate à pandemia são pensadas em cima dos dados oficiais e não levam em consideração esses casos subnotificados. Por isso é necessária aumentar a testagem da população para garantir números mais próximos da realidade”, afirma o professor Gutemberg Dias, um dos responsáveis pelo estudo.

Os cientistas coletaram os dados oficiais divulgados em boletins da Sesap e do Ministério da Saúde até 9 de maio e confrontaram com os registros de SRAG do mesmo período. A pesquisa mostra que os registros de SRAG em 2020 apresentaram um “crescimento muito grande” em relação aos anos anteriores (2015 a 2019), mesmo com as notificações de Covid-19 já contabilizadas.

A SRAG é uma doença respiratória grave que exige internação e é causada por vírus, seja ele o novo coronavírus (Sars-CoV-2), o Influenza (H1N1), pneumonias, bronquite e outras. Em outras palavras, qualquer diagnóstico de SRAG pode também positivar para a Covid-19. O aumento dos casos de SRAG tem relação com a pandemia e é um forte indício de subnotificação da nova doença, segundo os especialistas.

Nos registros oficiais do coronavírus – até a Semana Epidemiológica 19 – os pesquisadores da UERN encontraram 1.921 casos e 85 mortes no estado. Aplicado o método científico com base nos levantamentos de SRAG foi revelado que àquela altura teríamos até 2.519 confirmações, no cenário dos casos assintomáticos, ou seja, uma subnotificação de 31%. Levando em consideração a informação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que 80% dos infectados são assintomáticos, o RN poderia ter até 12.595 contaminados até 9 de maio.

A pesquisa também detalha que no período estudado o RN teria 169 mortes – quase o dobro do número oficial (85). “A pesquisa levou em consideração, também, os casos de óbitos por Covid-19 e SRAG para as 19 primeiras semanas epidemiológicas de 2020 e a média de óbitos por SRAG entre os anos de 2015 e 2019. Salienta-se que os óbitos por Covid-19 acumulados até o fechamento da 19ª semana epidemiológica era de 85 e os por SRAG era de 105”, diz trecho do estudo.

Interiorização do vírus

Pesquisa ressalta importância de barreiras sanitárias — Foto: Reprodução

Pesquisa ressalta importância de barreiras sanitárias — Foto: Reprodução

O estudo também mostrou que o vírus se espalhou rapidamente por meio da BR-304 (Fortaleza/Mossoró/Natal), BR-405 (Mossoró/Pau dos Ferros), BR-226 (Natal/Caicó), BR-406 (Natal/Macau) e BR-101 (Touros/Natal/João Pessoa). Após a confirmação da primeira morte em Mossoró, no dia 28 de março, houve uma dispersão nos óbitos para municípios próximos à capital (São Gonçalo do Amarante e Taipu).

Mossoró foi a cidade potiguar que apresentou maior crescimento da doença após a primeira morte. Em 11 de abril, a capital do Oeste concentrava 6 dos 13 óbitos registrados no Rio Grande do Norte até então. A BR-304, que liga Ceará, Mossoró e Natal, é apontado como o principal caminho de disseminação do vírus pelo estado.

“Devido a distância entre Mossoró e Natal esse grande registro de mortes está associado ao fluxo frequente de pessoas pela BR 304, além do fluxo constante de pessoas entre Mossoró e a cidade de Fortaleza-CE que vivencia um dos piores cenários das cidades brasileiras em termos de mortes e casos confirmados de Covid-19”, destaca um trecho do estudo.

Para os especialistas, isso mostra que a falta de fiscalização com barreiras sanitárias nas rodovias federais contribuiu para que o novo coronavírus se espalhasse rapidamente no RN. “Essa constatação é importante para que o estado e municípios possam montar barreiras sanitárias ao longo das rodovias e, sobretudo, no entorno dos municípios de maior incidência de casos de Covid”, diz o documento.

O artigo da Revista Pensar Geografia do Programa de Pós-graduação em geografia da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte é assinado pelos professores Gutemberg Henrique Dias, Carlos Daniel Silva e Souza, Marisa Rocha Bezerra e Filipe da Silva Peixoto.

G1 RN

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